domingo, 20 de novembro de 2011

Aos pretos

Não sou preta. Quem me vê, diz tenho que a pele alva e minhas bochechas coradas me denunciam. Não sou preta, mas em meu peito bate o tambor dos meus antepassados.
Pretos. Sei que o rufar incessante desperta minhas origens, faz acordar minha alma, que se alegra enquanto meu corpo dança ao som dos rufares. Meu sangue, como o de muitos, se não todos, nesse país, é mistura. Meu cabelo, sarará crioulo, já cantado por Sandra de Sá. Não sou preta, mas gosto de um dengo e de ver os moleques correndo nas praças. O “saravá’  é bem compreendido por mim, o “axé” também. Alguém de pés vermelhos e que distribui beijos voadores, me ensinou. Não sou preta, não aprendi  na escola a história da gente preta. Aprendi com a vida e com quem sabe da importância de Zumbi, Luther King, Sabotage. Não sou preta, mas também me negaram minha história. Não sou preta, mas sei que o racismo não passa. Não sou preta, mas sofro junto com os pretos que são desalojados pra que se construam negócios lucrativos. Não sou preta, mas sofro os tapas no rosto dados por policiais em quem é condenado por ter nascido preto. Não sou preta, mas sofro pelos pretos que sofrem como maioria encarcerada em nossas jaulas. Não sou preta, mas sofro pelos que trocaram a senzala e os navios negreiros pelos porões pútridos das penitenciárias. A escravidão também não passou. A carne negra ainda é a mais barata do mercado. Não sou preta, mas sou preta também. 

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sem mais

Entrelinhas exprimem o contrário do que se pretende. Suposições criam monstros que sufocam qualquer possibilidade de sopro vital. O corpo sinaliza a derrota. Boca seca, manchas pela pele, mãos trêmulas. Pusilanimidade. Aqui jaz a felicidade.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Elogio à loucura


A loucura que em mim habita
É mais sã que qualquer sanidade
Certeza de mutabilidade
De complexidade do ser
De ser agora e não amanhã
Ou logo após

A loucura que habita em mim
Grita!
E se cala...
Ama e pena
É luz e dor

A loucura que em mim habita
É puro desvario
Louca em si mesma
Rompe, transmuta
Conquista, se embriaga
Inebria e descobre
Descobre-se

A loucura que em mim habita
Gira insanamente
Em uma deliciosa coreografia
Suspensa no ar

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Aracnofobia

Saí
14 passos
Olhos no aracnídeo
Grande, preto, pernas compridas
Parei
Medo
Voltei
Olhos no pai
- Por que voltou?
- Tem uma aranha ali
- E daí?
- Tenho medo, não consigo.
- Que absurdo! Você vai passar.
- Não vou.
- Agora!
12 passos
Olhos na aranha
Parei
- Vai, Eduarda!
Corri
Olhos em um ponto fixo
Pra frente, sem desvios, linha reta
20 passos
Distância segura
Pernas bambas, mão suando, coração disparado
Olhos na aranha
Ela no mesmo lugar
Olhos no pai
- Viu?
Eu maior que o medo
Lição aprendida




Aprendi nesse dia que os medos não podem ser tão grandes que nos impeçam de seguir adiante. Os monstros que criamos são sempre menores e, muitas vezes, nem são monstros. O medo não sumiu, mas o enfrentei. Meu pai me mostrou, ali, que eu era maior que ele, que eu era capaz de vencê-lo. Acho que nunca vou me esquecer desse episódio. Sempre que temo alguma coisa, me lembro disso. E vou correndo pro meu destino!  


Fiquem aí com David Gilmour, da banda Pink Floyd, cantando: "Running over the same old ground. What have we found? The same old fears. Wish you were here". Sim, Gilmour, os medos são os mesmos... Mas não vou ficar parada diante deles, "com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar".


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Reabrindo as asas

Estou de volta. Pelo menos enquanto minha memória me fizer o favor de lembrar que esse blog existe e que, pra se manter vivo, precisa ser alimentado com palavras.
A postagem não é de uma poesia nova, mas ela representa bem esse momento de retomada e meus vôos diários, meu renascer no encontro, minhas asas abertas pra vida e pro amor.

Inspiração não mais contida

Palavras não silenciadas

Dança sem limites

Sem vergonha

O rosto ainda cora

Mas não paro

Prossigo

A verdadeira liberdade transborda

Minhas asas não voam sozinhas

A matéria de que são produzidas

É o amor

E o amor não é só

Compartilha

Vôo junto

Mais leve

Mais plena

Mais eu