domingo, 20 de novembro de 2011

Aos pretos

Não sou preta. Quem me vê, diz tenho que a pele alva e minhas bochechas coradas me denunciam. Não sou preta, mas em meu peito bate o tambor dos meus antepassados.
Pretos. Sei que o rufar incessante desperta minhas origens, faz acordar minha alma, que se alegra enquanto meu corpo dança ao som dos rufares. Meu sangue, como o de muitos, se não todos, nesse país, é mistura. Meu cabelo, sarará crioulo, já cantado por Sandra de Sá. Não sou preta, mas gosto de um dengo e de ver os moleques correndo nas praças. O “saravá’  é bem compreendido por mim, o “axé” também. Alguém de pés vermelhos e que distribui beijos voadores, me ensinou. Não sou preta, não aprendi  na escola a história da gente preta. Aprendi com a vida e com quem sabe da importância de Zumbi, Luther King, Sabotage. Não sou preta, mas também me negaram minha história. Não sou preta, mas sei que o racismo não passa. Não sou preta, mas sofro junto com os pretos que são desalojados pra que se construam negócios lucrativos. Não sou preta, mas sofro os tapas no rosto dados por policiais em quem é condenado por ter nascido preto. Não sou preta, mas sofro pelos pretos que sofrem como maioria encarcerada em nossas jaulas. Não sou preta, mas sofro pelos que trocaram a senzala e os navios negreiros pelos porões pútridos das penitenciárias. A escravidão também não passou. A carne negra ainda é a mais barata do mercado. Não sou preta, mas sou preta também.